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É tempo de fogueira

junho 21, 2013

Os eventos de junho desencadearam muitas rupturas em curso que apontam para uma ruptura sistêmica de um modelo que há algum tempo já começou a ser substituído por outro, mas que agora irrompe definitivamente nas ruas de todo o país, a princípio nas grandes cidades do centro político e financeiro, espraiando-se em seguida para as demais capitais e que agora chegou a cidades brasileiras de médio e pequeno porte. Refiro-me especialmente ao modelo de democracia representativa, fundado no monopólio da representação política de posse dos partidos.
A instituição partidária tradicional, burocratizada, desfigurada, verticalizada e autocentrada, que já se encontrava em estado crescente de falência múltipla de órgãos, agora arde na fogueira da quadra junina mais cívica da nossa história.
Na segunda passeata ocorrida em Belém na tarde ensolarada de 20 de junho, topei com vários militantes partidários do PT, PSOL, PCdoB, PSTU (e por aí vai), agora destituídos dos seus símbolos e marcas (camisas, bandeiras, adesivos, faixas) como em respeito ao caráter francamente antipartidário das manifestações ou por receio mesmo das hostilidades que chegaram ao extremo da agressão física em alguns casos isolados, mas que podem generalizar-se.
Os militantes partidários, que aumentaram da primeira para a segunda passeata, num claro movimento de reaproximação e de reconexão com as ruas, lugar que bem conhecem, mas do qual se distanciaram, sentem muitas coisas ao mesmo tempo e reconhecem que os partidos nos quais ainda apostam as suas fichas e depositam suas crenças estão diante de um dilema existencial: ou se reinventam ou serão despojados de qualquer vestígio que ainda lhes resta de representatividade.
Comparo os militantes partidários que foram às ruas, a despeito da hesitação dos “chefes” de suas legendas, como pequenas brasas dispersas necessitadas de agregação, umas com as outras, para que voltem a produzir o fogo da ação política transformadora.
Os partidos e os políticos, tal como se estruturaram e se mantém no poder, deixaram de ser reconhecidos por uma massa crescente dos representados como capazes e legítimos para operar as mudanças há muito reclamadas e que se tornaram urgentes.
A multidão que dá nova serventia às ruas é apenas uma pequena parcela do povo que já não se vê mais representado pelo que aí está e pelos que aí estão.
Os atos de depredação e violência, embora indesejados e traumáticos, não são a tônica dos protestos, mas um efeito colateral de um remédio aplicado em doses elevadas, mas necessário para enfrentar a grave doença da injustiça social que debilita a sociedade brasileira.
A tônica é o desejo sincero de mudança, o engajamento cívico. A tônica é a vontade de ajudar a mudar o Brasil, de fazer a sua parte.
Se no terreno da democracia representativa que se estabeleceu no Brasil, os corruptos, demagogos e malfeitores fossem a minoria, como o são – em meio à onda de protestos – os manifestantes que praticam atos de violência, não tenho dúvida de que já seríamos um país melhor.
O Brasil, qual fogueira de São João, está ardendo e queimando pestanas e paradigmas.

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