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É preciso praticar o discurso

março 6, 2013

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A interpretação política e ideológica que se estabeleceu historicamente entre “esquerda” e “direita”, cuja origem remonta à revolução francesa, não é feita exclusivamente de dicotomias e oposições. Há nuances, relativizações e interseções entre ambas que não são explicáveis pelas correntes delas derivadas: centro-esquerda ou centro-direita.

O Partido dos Trabalhadores (PT), autoproclamado, desde o berço, como partido de esquerda e socialista, e ainda hoje reivindicando-se de esquerda, no último terço de sua gloriosa história passou a incorporar ou a aceitar algumas teses da chamada direita que, antanhos, eram exorcizadas pelos petistas, como foi o caso da reforma da previdência, que culminou com a expulsão de respeitados militantes petistas que se opuseram à reforma, guardando coerência com as posições históricas do PT.

O argumento para sustentar a inflexão à direita foi rigorosamente o mesmo usado desde sempre pela direita para defender a política de privatizações.

É de se reconhecer e louvar a posição do governo petista de não privatizar o Banco do Brasil, a Petrobras e a Caixa Econômica, como teria feito o PSDB, caso se mantivesse no governo central, o que aumentaria ainda mais a dilapidação do patrimônio público e reduziria sobremaneira a soberania nacional, ainda que, sob a égide do governo petista, o capital estrangeiro tenha avançado sobre o patrimônio nacional.

Por outro lado, a exclusão das populações indígenas e ribeirinhas de qualquer escuta séria e consequente sobre os ônus e os bônus da construção da usina de Belo Monte no Pará, é digna de governos de direita, assim entendida a posição política que pensa e exerce os governos em benefício de uma classe dominante: os clérigos e nobres de anteontem, os burgueses de ontem e os endinheirados de hoje.

A adoção de programas sociais como o Bolsa-Família, por seu turno, posicionam o governo à esquerda, dado que destaca parte -ainda que mínima – dos tributos pagos pelos contribuintes para diminuir a miséria e melhorar – ainda que num patamar ínfimo – a profunda desigualdade social e a odiosa concentração de renda que coloca o Brasil na vergonhosa posição de um dos países mais desiguais do mundo.

Noutro giro, consumir quase a metade do orçamento da União com a dívida pública, muito mais do que é aplicado em saúde, educação, segurança, saneamento, agricultura e meio-ambiente, somados, recoloca o governo federal sob o domínio da doutrina neoliberal, ou de direita, a gosto do freguês.

Em 2011, mais de R$700 bilhões, ou quase a metade do Orçamento Geral da União – OGU, foram consumidos com uma dívida pública que ninguém – nem o detentor do mais alto título acadêmico em economia – é capaz de comprovar a sua origem in totum.

Em 2011, enquanto a dívida pública torrou literalmente 45,05% do orçamento brasileiro, a saúde recebeu 4,07%; a educação, 2,99%; o saneamento, 0,02% e a segurança pública, 0,41%.

E o que dizer da corrupção eleitoral que tragou os da esquerda para o fundo do poço (os da direita lá já residiam) e faz com que o poder econômico determine – se não todos, felizmente – quem governa e legisla no Brasil?

Ser de esquerda ou direita, oposição ou situação, isto ou aquilo, mais do que um discurso bem embalado, uma mensagem comovente, uma exortação apaixonada, ou um rótulo estilizado, requer obstinação, renúncia, sinceridade e compromisso com a causa que dizemos defender e verdade consigo mesmo e com os outros; requer viver a mensagem; requer praticar o discurso.

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