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Uma Nova Política, um Novo Partido: eis a questão?

janeiro 17, 2013

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Distopia

Tive contato pela primeira com o termo “distopia” num artigo do professor e pesquisador Thomaz Wood Jr que abordava as alterações do uso da memória e as interferências em nossa atividade cerebral causadas pela convivência intensa com websites, e-mails, facebooks e por aí vai.

A “distopia virtual”, título do artigo, resulta da influência que as novas mídias tecnológicas exercem sobre a forma como as pessoas veem, leem e refletem.

“Temos cada vez mais dificuldade para enfrentar textos longos e densos. Concentração e contemplação tornaram-se capacidades raras.”, observa o professor.

Penso que a dita sociedade moderna está acometida também de outras espécies de distopia: a social, a política e a ética. Estas, decorrentes da convivência intensa, não com a tecnologia propriamente dita, mas com os três “ismos”: o consumismo, o imediatismo e o individualismo.

Os efeitos dessa distopia multifacetada e pandêmica manifestam-se a todo momento e em todas as organizações sociais e esferas da atividade humana: na família, na vizinhança, na escola, no trabalho, no sindicato, no mundo empresarial, na administração pública, no partido político.

Os três “ismos” enraízam todas as condutas e práticas insustentáveis, assim entendidas com as que promovem e perpetuam a desigualdade e a injustiça sociais, concentram e acumulam riqueza, violam a dignidade humana, exploram predatoriamente a biodiversidade, ameaçam a biosfera e a vida das futuras gerações.

São exemplos concretos de condutas e práticas insustentáveis: a corrupção, a sonegação, a devastação ambiental, a prevaricação, o “Caixa 2”, o corporativismo, o carreirismo, o pragmatismo e a ganância.

Um novo partido: essa é a questão?

Eis que povoa as mentes e inspira os sonhos daqueles que, de uns tempos pra cá, enfeixam-se para enfrentar o pragmatismo que se adonou de vasto território da política brasileira, uma indagação: criar ou não criar um partido político?

“Que criatura pela manhã tem quatro pés, ao meio-dia tem dois, e à tarde tem três?”, desafiava a Esfinge ameaçando devorar quem não a decifrasse.

O homem, respondeu Édipo, que engatinha quando bebê, anda sobre dois pés quando adulto e usa bengala quando ancião.

Estivéssemos diante do enigma da mitológica Esfinge, poderíamos dizer que a institucionalidade partidária está no entardecer, a precisar de muletas para caminhar.

Entregues ao pragmatismo eleitoral e comprimidos pelo horizonte rebaixado do imediatismo, os partidos políticos perderam-se no caminho que enveredaram e se encalacraram na judicialização da política e na criminalização dos políticos.

Criar ou não criar um partido: eis a questão?

Eis “uma” questão, diria, mas não “a” questão. Há outras questões que a esta precedem.

Vamos a algumas delas.

Que atributos são exigíveis para que um partido de novo tipo, insulado por uma cultura política e uma estrutura normativa deformadoras e corruptoras, seja um terreno estéril para as condutas e práticas insustentáveis e, ao mesmo tempo, fértil para uma nova política orientada por uma sustentabilidade multidimensional: social, econômica, ambiental, ética, jurídica, estética e política?

Considerando que é legal (ainda) as empresas doarem dinheiro para financiar campanhas eleitorais, os partidários dessa nova política rejeitarão, por exemplo, a contribuição oriunda de empresas executadas por dívidas com a fazenda pública ou denunciadas por crimes comerciais, fiscais, previdenciários, financeiros ou ambientais?

Em que novas bases serão celebradas as alianças políticas e o recebimento de apoio financeiro para as campanhas eleitorais?

E, a contrário senso, em que novas bases alianças políticas serão rejeitadas por ameaçarem o programa e a identidade pública do partido?

O “Caixa 2” eleitoral manter-se-á como um “mal necessário”, um meio que se justifica em nome de “nobres” fins, ou será banido da prática dos partidários da nova política?

Que novos mecanismos de interlocução com a sociedade em geral e com os partidários em particular podem manter acesa a chama da participação e do controle social ativos?

Agora mesmo já nos deparamos com a movimentação de indivíduos e grupos políticos em direção a esse que pode vir a ser um partido inspirado pelo sonho de um novo fazer político. O que fazer para desencorajar os que o fazem por mero pragmatismo?

 Por uma “Moral Pública”

Não basta que não seja pequena a alma para valer a pena a empreitada de construir um novo partido.

É preciso uma base ética e programática e um projeto de sociedade que articulem e combinem as dimensões já mencionadas da sustentabilidade.

No tocante à base ética, penso que uma nova política, com ou sem um novo partido, precisa cultivar e semear aquilo que tenho chamado de “moral pública”, que nos permita atuar no conflituoso terreno em que se encontram e se chocam o interesse público e o interesse privado.

A “moral pública” se impõe como enorme desafio para aqueles que veem a política como atividade humana emancipatória e construtora da felicidade, cujo verbo “servir” prevalece sobre os demais verbos.

É preciso conceber, ver e praticar a política como o ofício humano do “servir” ao nosso tempo, à nossa comunidade, local, regional e internacional; servir à geração atual e às gerações que jamais conheceremos porque o tempo humano não permite.

Estamos ainda à mercê de uma tradição fortemente marcada pelo patrimonialismo, num país em cujos negócios e interesses privados se misturam aos negócios e interesses públicos, fazendo destes um instrumento a serviço daqueles, por meio da corrupção, da sonegação, do favorecimento em licitações, do financiamento de campanhas eleitorais, da cooptação e da chantagem.

Em artigo de abril de 2011, que incorporo em parte à presente reflexão, postulava que a política, para além de qualquer coisa que se assemelhe a uma cruzada contra a corrupção e os corruptos, é atividade humana cujo sentido mais genuíno é o de afirmar e honrar a esfera pública.

A corrupção, no entanto, é muito mais do que mera desonestidade pessoal e o seu alcance extrapola os limites da esfera individual. A corrupção nasce e floresce no terreno em que se estabelece a conflituosa relação entre o público e o privado.

Quanto mais intenso é o conflito entre o público e o privado, mais sofisticados são os mecanismos de corrupção, mais ilustres são os corruptos e corruptores e mais deletérios são os seus efeitos para a sociedade.

Afirmar e honrar a esfera pública, razão de ser da política, é o melhor antídoto contra a corrupção que acontece no âmbito das instituições públicas sempre que o interesse privado subjuga o interesse público e preside decisões de políticos, administradores e servidores públicos.

Um partido, para ser genuinamente novo, precisa fazer florescer uma “moral pública” que, sem rechaçar os interesses privados, libertem as instituições de Estado da condição de cativas do poder econômico, fenômeno chamado por alguns estudiosos de captura do Estado pelo capital.

A afirmação da esfera pública constituidora de uma “moral pública” é, portanto, um grande desafio dessa nova política e, por consequência, de um novo tipo de partido e de um novo agir político.

É preciso conter essa, digamos, “guerra” de todos contra todos (o estado de natureza em sentido hobbesiano) que se apoderou da política e dos partidos políticos.

Juntemos sonháticos e “esperançativos” nesse novo caminhar. “Esperançativos” são os que, munidos de esperança distinguem-se dos esperançosos porque estes, mesmo alimentados de otimismo, muito mais esperam do que fazem acontecer, ao passo que aqueles agem e lutam para que a esperança aconteça e seja bem mais que uma eterna espera.

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3 comentários

  1. No momento do caos político que atravessa a sociedade brasileira é alentador ler um texto que aborda de forma real o fosso em que se encontra a podridão da políticagem. O autor no faz lembrar o grande educador e extraordinário humanista Paulo Freire quando destacou o gosto de perguntar, a necesidade de indignar-se e o compromisso com a esperança. Não a esperança ingenua, mas a
    esperança crítica que se funda na verdade, na ética, na luta contra os que usam as liberdades democráticas para praticarem “malfeitos”, no dizer da presidente Dilma.
    Nesse grupo recheado de “picaretas” que por ocasião das campanhas eleitorais usam e abusam em seus discursos sobre “precocupações com saúde, educação, segurança etc”, mas quando eleitos visam exclusivaamente seus interesses pessoais ou de grupos. Especialmente, dos grupos econômicos que financiaram suas campanhas. O descrédito nos políticos brasileiros é real, porque não merecem um mínimo de confiança, com raras excessões.
    Criar ou não criar um novo partido não é bem a questão, o problema é o modelo político ultrapassado, corroído, corrupto que está sendo exercitado no Brasíl. Será que um novo partido buscando nova pactuação com sociedade vai sobreviver? Será que as velhas raposas vão deixar vicejar essa nova proposta de fazer política? Todos sabemos que os grupos dominantes do poder político na atualidade não têm interesse nenhum na mudança de rumos. Lembremos a tão falada reforma política mas que não passa de discurso de ocasiões. A maioria dos políticos independente de sigla, com raras e nomeadas excessões, não quer mudança.
    O sistema político brasileiro está doente, os partidos perderam importância e credibilidade no seio da sociedade e a ruptura desse processo, no meu entendimento, não se fará através da criação de novos partidos “bem intecionados”. Novas formas de lutas na sociedade precisaqm ser engrendradas, este é o grande desafio do nosso tempo.
    Na atualidade, parece-me que certa nuvem de desconfiança, de desesperança começa a cobrir importantes segmentos da sociedade brasileira cujos movimentos ainda são imprecisos.
    Ao finalizar, quero parabenizar o autor desse paper tão oportuno sobre a análise lúcida da realidade política brasileira, mas precisamos lembrar também que a desesperança, conforme Paulo Freire, em sua obra “Pedagogia da Esperança: um reencontro com a Pedagogia do oprimido”, destaca ” a desesperança nos imobiliza e nos faz sucumbir no fatalismo”. Até porque sabemos que a nossa esperança é necessária mas não é suficiente. Portanto, companheiro a luta continua, porém cada vez mais desafiadora.


  2. […] Diálogos sobre política, ética, mídia e cultura « Uma Nova Política, um Novo Partido: eis a questão? […]


  3. […] das reflexões que apresento no artigo “Uma Nova Política, um Novo Partido: eis a questão?”, recomendo a leitura de outros dois documentos que oferecem elementos importantes constitutivos da […]



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